segunda-feira, 3 de agosto de 2026
Perdoar ou terminar? O que avaliar após descobrir uma traição
Perdoar ou terminar? O que avaliar após descobrir uma traição
Para terapeuta familiar, traição é responsabilidade de quem trai, mas a reconstrução, quando desejada, exige lidar com trauma, confiança, autoestima e acordos rompidos
A traição raramente começa no flagrante. Antes da mensagem descoberta, da conversa escondida ou do encontro revelado, quase sempre existe um processo silencioso de afastamento, desgaste e ruptura de acordos emocionais dentro da relação. Quando a verdade aparece, o impacto vai além do ato em si: atinge a confiança, reescreve memórias e desmonta a imagem que se tinha da pessoa amada.
Para a terapeuta familiar Aline Cantarelli (@aline.cantarelli no Instagram), a traição precisa ser tratada como um trauma relacional. “Uma traição é um trauma que quem é traído carrega para uma vida inteira. A pessoa pode superar, pode reconstruir, mas é uma marca”, afirma.
Segundo Aline, um dos erros mais comuns ao tratar o tema é confundir a responsabilidade pela traição com a responsabilidade pela relação que existia antes dela.
“A traição é 100% responsabilidade de quem trai. Isso é um fato. Agora, a relação que ambos levavam antes é responsabilidade dos dois”, explica.
A distinção, de acordo com ela, é importante porque impede que a pessoa traída assuma uma culpa que não é dela. Ao mesmo tempo, ajuda o casal, quando existe desejo real de reconstrução, a olhar para a relação que vinha sendo construída antes da ruptura.
Traição não é só sexual
Embora a traição sexual seja a mais lembrada, a terapeuta explica que a quebra de confiança pode aparecer de outras formas. Há traições emocionais, financeiras e de confiabilidade, por exemplo.
Isso significa que a relação pode ser ferida quando um dos parceiros esconde dinheiro, cria vínculos afetivos paralelos, compartilha intimidades do casamento com terceiros ou mantém comportamentos que rompem acordos importantes do casal.
“Existem traições de diversos níveis. A traição sexual bate em lugares muito doloridos, mas não é a única forma de traição”, observa.
O risco das brechas cotidianas
Aline avalia que, em alguns casos, a traição não começa com uma decisão explícita de romper o pacto conjugal, mas com pequenas permissões que crescem ao longo do tempo.
Ela cita como exemplo relações de intimidade frequente com colegas de trabalho, caronas recorrentes, conversas emocionais constantes com terceiros ou situações em que a pessoa passa a dividir mais da própria vida com alguém de fora do que com o cônjuge.
O problema, segundo ela, não está necessariamente em uma interação isolada, mas na recorrência, na intimidade e no espaço emocional que essa relação começa a ocupar.
“De repente, o sujeito que dá carona para a colega de trabalho passa mais tempo de qualidade com ela do que com a própria esposa. Ele se esvazia ali e, quando chega em casa, não tem mais o que dividir”, explica.
Para a terapeuta, a vigilância dos próprios limites é parte da preservação da relação. Não se trata de controle, mas de consciência sobre situações que podem confundir afeto, carência, vaidade e desejo.
O que fazer ao descobrir uma traição
A descoberta costuma vir acompanhada de choque, raiva e impulso de reação. Mas Aline orienta que a primeira decisão não deve ser tomada no auge da dor.
Segundo ela, antes de confrontar, expor ou tomar uma atitude definitiva, a pessoa traída precisa tentar responder a uma pergunta: quer ou não investir na relação depois do ocorrido?
“Se você quer seguir com essa relação e tem razões claras sobre isso, é um caminho. Se não quer seguir, é outro caminho”, diz.
A terapeuta alerta que reações impulsivas, exposição pública ou vingança podem gerar consequências difíceis de administrar depois. Isso não significa silenciar a dor, mas buscar apoio antes de agir apenas movido pelo trauma.
Perdão não apaga a marca
Aline também diferencia perdão de esquecimento. Para ela, quem foi traído não apaga o que aconteceu. O que pode existir, em alguns casos, é um processo de aceitação, elaboração do trauma e reconstrução de confiança.
A reconstrução, quando acontece, exige arrependimento consistente de quem traiu, disposição de reparar a confiança rompida e cuidado emocional de quem foi ferido. A especialista reforça que terapia individual ou de casal pode ser importante nesse processo, principalmente quando há repetição de perguntas, obsessão pelo tema, rancor ou dificuldade de retomar a vida.
Outro ponto sensível é a comparação com a terceira pessoa envolvida. Aline afirma que muitas mulheres e homens traídos passam a questionar o próprio valor, aparência, idade, corpo ou capacidade de serem amados. Para ela, esse é um dos cuidados centrais após a descoberta.
“A sua autoestima não pode ser abalada porque ele não tem esse direito. Autoestima é uma percepção sobre você mesma”, afirma. Segundo a terapeuta, se houver áreas de autocuidado abandonadas, elas podem ser retomadas. Mas isso não deve ser feito como resposta à comparação, e sim como recuperação de autonomia, saúde e identidade.
Existe vida após a traição?
Aline afirma que sim, mas não em todos os casos e não de qualquer forma. Para ela, algumas relações terminam e esse também pode ser um caminho legítimo. Outras, quando existe arrependimento real, desejo dos dois lados e trabalho sério de reconstrução, podem se transformar em uma nova etapa.
“Não estou dizendo que alguém é obrigado a perdoar. Mas, quando as pessoas perdoam de verdade e se propõem a refazer a relação, podem encontrar uma nova chance”, diz.
A especialista reforça que a decisão precisa ser consciente. Nesse processo, permanecer por medo, dependência, pressão social ou negação da dor pode prolongar o sofrimento. Por outro lado, reconstruir exige coragem, apoio e compromisso dos dois.
No centro da discussão, segundo Aline, está uma pergunta maior: que tipo de escolha cada pessoa quer fazer diante da ruptura?
“A vida inteira é composta por escolhas. Das mais simples às mais difíceis. E são essas escolhas que contam quem você é”, afirma.
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Quem é Aline Cantarelli?
Aline Cantarelli é terapeuta familiar com mais de uma década e meia de atuação, especializada em relacionamentos conjugais, comunicação afetiva e reconstrução de vínculos no ambiente familiar. É professora de pós-graduação em Saúde Mental, Ciências da Mente e Orientação Familiar. Também é palestrante e comunicadora com presença digital expressiva, onde compartilha reflexões e orientações sobre amor, rotina conjugal, maternidade, perdão e sexualidade com sensibilidade, profundidade e linguagem acessível. Ao longo da carreira, já acompanhou mais de 6 mil famílias, sempre com foco em acolhimento e construção de soluções reais para os desafios afetivos da vida moderna.
Camila Correa de Tulllio Augusto
camila_augusto@terra.com.br
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