terça-feira, 3 de novembro de 2026
Dia Nacional do Riso: por que estamos rindo cada vez menos e o que isso revela sobre nossa saúde mental?
Dia Nacional do Riso: por que estamos rindo cada vez menos e o que isso revela sobre nossa saúde mental?
Estudos mostram que rir pode reduzir em até 31,9% os níveis de cortisol, hormônio associado ao estresse; psicóloga explica como a falta de leveza na rotina pode afetar o equilíbrio emocional
Quando foi a última vez que você deu uma gargalhada de verdade? Daquelas que surgem espontaneamente, interrompem uma conversa e fazem esquecer, ainda que por alguns minutos, as preocupações. Em uma rotina marcada por compromissos, cobranças e notificações que parecem não ter fim, encontrar espaço para o bom humor pode ter se tornado mais difícil do que imaginamos. No Dia Nacional do Riso, celebrado em 6 de novembro, a ciência oferece um bom motivo para recuperar esse hábito: rir também pode fazer bem à saúde.
Uma revisão de estudos publicada em 2023 na revista científica PLOS ONE, que reuniu oito pesquisas e 315 participantes, identificou uma redução média de 31,9% nos níveis de cortisol após intervenções envolvendo o riso, em comparação com grupos de controle. O resultado sugere que uma boa gargalhada pode contribuir para aliviar o estresse, embora os pesquisadores ressaltem que ainda são necessários estudos mais amplos para compreender seus efeitos a longo prazo.
Para a psicóloga Cristiane Belmonte, fundadora e diretora técnica da Clínica Belmonte Saúde, em São Paulo, o riso tem uma função que vai além da diversão. Ele pode representar uma pausa emocional em meio às pressões do cotidiano, ajudando a enfrentar situações difíceis sem transformar cada problema em um peso permanente.
"Estamos vivendo uma época em que as pessoas se cobram o tempo inteiro. Existe uma preocupação constante em produzir, resolver problemas e corresponder às expectativas. Nesse cenário, o riso acaba perdendo espaço, como se a leveza fosse algo secundário. Mas permitir-se rir, descansar e viver momentos prazerosos também faz parte do cuidado com a saúde mental. Não significa fugir das responsabilidades, e sim encontrar equilíbrio para lidar com elas", explica a psicóloga.
O que acontece no organismo quando rimos?
O riso mobiliza diferentes processos fisiológicos. Uma gargalhada altera temporariamente o ritmo da respiração, envolve a contração de músculos e pode ser seguida por uma sensação de relaxamento. No campo emocional, o humor também pode ajudar a diminuir a tensão diante de situações estressantes e favorecer a aproximação entre as pessoas.
Uma meta-análise publicada em 2026 no Journal of Psychiatric Research, reunindo 33 estudos, também encontrou efeitos favoráveis de intervenções baseadas no riso sobre sintomas de ansiedade, depressão e estresse. Os resultados não significam que o humor substitua tratamentos médicos ou psicológicos, mas reforçam seu potencial como recurso complementar de bem-estar.
Cristiane observa que o problema não está em passar um dia sem rir, mas em perceber que a vida se tornou uma sequência de obrigações, sem espaço para experiências que proporcionem satisfação.
"Quando uma pessoa passa muito tempo sob pressão, pode começar a funcionar no automático. Ela trabalha, cumpre tarefas, resolve questões familiares, mas deixa de perceber aquilo que lhe proporciona prazer. A perda persistente do interesse por atividades antes agradáveis merece atenção, principalmente quando vem acompanhada de cansaço, irritabilidade e alterações no sono. É importante entender que saúde mental não é apenas a ausência de sofrimento, mas também a possibilidade de experimentar bem-estar", afirma.
Rir junto também fortalece os vínculos
Existe ainda um aspecto do riso que não depende apenas de suas repercussões no organismo: a capacidade de aproximar pessoas. Uma conversa descontraída, uma lembrança engraçada ou uma brincadeira compartilhada podem criar momentos de conexão em uma época em que boa parte das relações acontece por meio de telas.
No ambiente profissional, o bom humor também pode contribuir para relações mais acolhedoras, desde que não seja utilizado para constranger colegas ou minimizar situações de sofrimento. Para Cristiane, empresas que desejam promover saúde mental precisam compreender que um ambiente saudável não se constrói apenas com metas e resultados, mas também com respeito, segurança psicológica e relações humanas de qualidade.
"O humor pode aproximar as pessoas e tornar a convivência mais agradável, mas precisa existir de maneira respeitosa. Não adianta incentivar momentos de descontração se o ambiente continua marcado por cobranças excessivas, medo e falta de acolhimento. O bem-estar emocional depende de um conjunto de fatores, e a qualidade das relações é um deles. As pessoas precisam sentir que podem ser espontâneas, sem a obrigação de demonstrar felicidade o tempo inteiro", destaca.
Na minha experiência com empresas, ações de saúde mental também podem abrir espaço para uma relação mais leve com o cotidiano. Durante a SIPAT (Semana Interna de Prevenção de Acidentes do Trabalho), por exemplo, a empresa pode promover uma apresentação teatral ou outra atividade que estimule o riso de forma respeitosa, sem transformar ninguém em alvo. Também podem ser organizadas rodas de conversa sobre a maneira como lidamos com os problemas, sobre leveza e sobre os limites do humor. Afinal, o riso não deve ser usado para constranger, expor ou praticar bullying. Quando isso acontece, deixa de ser descontração e passa a causar sofrimento.
É possível recuperar a leveza?
Embora não exista uma quantidade ideal de gargalhadas por dia, pequenas mudanças podem favorecer momentos de prazer. Retomar encontros com amigos, assistir a uma comédia, brincar com os filhos ou reservar tempo para atividades que despertam interesse são possibilidades simples que podem ajudar a tornar a rotina menos desgastante.
A especialista ressalta, porém, que transformar a felicidade em mais uma obrigação pode produzir o efeito contrário. Sentir tristeza, preocupação ou desânimo em determinados momentos faz parte da experiência humana, e ninguém precisa esconder essas emoções atrás de um sorriso.
"Precisamos compreender que rir não é uma obrigação e que ninguém precisa estar bem o tempo todo. O importante é construir uma rotina em que exista espaço para diferentes emoções, inclusive a alegria. Muitas vezes, as pessoas esperam que tudo esteja resolvido para aproveitar a vida, quando, na realidade, os pequenos momentos de prazer também ajudam a atravessar períodos difíceis. Cuidar da saúde mental é aprender a respeitar o sofrimento sem abrir mão da possibilidade de ser feliz", conclui Cristiane Belmonte.
A psicoterapia também pode contribuir muito nesse processo, ajudando a pessoa a reconhecer o que tem tirado espaço do prazer, a lidar com o estresse e a construir formas mais saudáveis de atravessar as dificuldades. Na Clínica Belmonte Saúde, esse cuidado pode ser realizado com uma equipe multiprofissional, de forma presencial ou on-line, além das rodas de conversa, que favorecem a troca e a reflexão.
Gaivota Comunicação
jornalista.sarah.carvalho@gmail.com
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