sexta-feira, 25 de setembro de 2026

Costura vira espaço de pausa, criação e cuidado com a saúde mental

Costura vira espaço de pausa, criação e cuidado com a saúde mental Para Larissa Galdino, aprender a costurar trouxe momentos de tranquilidade, satisfação pessoal e novas relações durante um período de cuidados com a saúde mental
Cuidar da saúde mental também pode significar recuperar interesses que ficaram de lado, descobrir uma nova atividade ou simplesmente reservar algumas horas da semana para fazer algo que desperte prazer. Para Larissa Galdino dos Santos, enfermeira emergencista, intensivista e servidora pública, foi assim que a costura entrou na rotina e passou a representar um momento de pausa em meio a um período difícil da vida. Há dois anos, Larissa recebeu os diagnósticos de burnout, transtorno de estresse pós-traumático e depressão. Ela iniciou tratamento psiquiátrico e psicoterapia, mas percebeu que precisava encontrar também uma atividade que lhe trouxesse satisfação pessoal e alegria. Foi então que decidiu realizar um sonho antigo, que havia sido adiado por muito tempo, e começou a frequentar as aulas de costura, no Clube de Costura, em Goiânia. “Era um sonho antigo e adiado por muito tempo. Foi aí que iniciei as aulas de costura”, conta Larissa, que hoje já espera ansiosamente pelo dia da semana reservado para aprender novas técnicas. Segundo ela, saber que terá aula já contribui para melhorar seu humor e acaba refletindo também na rotina dos demais dias. Um momento para se desligar dos problemas Durante as aulas, a atenção se concentra em tarefas que exigem cuidado e paciência. Escolher os tecidos, cortar, preparar a máquina e acompanhar cada ponto fazem com que a enfermeira se dedique ao que está acontecendo naquele momento. Ela descreve essa experiência como uma sensação de paz, em que consegue se afastar temporariamente das preocupações do cotidiano e se dedicar a uma atividade completamente diferente daquela que exerce profissionalmente. “Por um determinado momento não existem os problemas cotidianos. É o seu momento, e nele você se desconecta do seu mundo particular. Tirar esse tempo para exercer outra função diferente da sua habitual te desafia a sair de um lugar turbulento e migrar para um cheio de novas possibilidades”, afirma. A sensação permanece depois que a aula termina. A enfermeira conta que percebe uma mudança no próprio semblante, acompanhada de uma sensação de relaxamento e leveza. E, ao sair de uma aula do Clube da Costura, já pensa no que pretende aprender no próximo encontro e nos tecidos que gostaria de escolher para as próximas peças. O aprendizado também abriu espaço para novas relações. No ambiente das aulas, Larissa encontrou pessoas com quem passou a compartilhar experiências, histórias, dificuldades e momentos de descontração. Ela destaca o acolhimento recebido no local e a maneira como a professora Sílvia conduz as atividades, criando um ambiente tranquilo para que os alunos possam aprender sem medo de errar. “No Clube da Costura você é muito bem recebida por todas as colaboradoras. O ambiente é calmo e organizado, a professora Sílvia é maravilhosa e sua didática de ensino é muito clara. As pessoas e o ambiente propiciam um clima harmonioso durante as aulas e entre os alunos”, relata.
Entre erros, aprendizados e novas descobertas Como todo aprendizado, a costura também exigiu paciência no começo. Larissa conta que a máquina parecia difícil de entender e que os primeiros pontos não saíam como gostaria. Com a orientação da professora e a continuidade das aulas, entretanto, começou a perceber que era capaz de fazer as próprias peças, o que trouxe uma satisfação que ela não esperava encontrar na atividade. “Só vá costurar. No começo você acha que não vai dar certo, seus pontos são ruins, a máquina parece algo indecifrável. Mas a professora vai te conduzindo de uma forma tão doce e coesa que, quando menos se espera, você está fazendo suas próprias peças”, diz. Para Larissa, o significado de produzir uma peça vai além do resultado final. O processo de juntar tecidos, unir partes e construir algo novo acabou se tornando uma maneira de enxergar a própria trajetória. “É muito satisfatório criar uma peça. É um pouco da tradução da própria vida da gente. Somos todos retalhos alinhavados pelo tempo e assim nos tornamos uma grande colcha de retalhos”, destaca. A escolha pelo Clube da Costura aconteceu inicialmente pela proximidade de sua casa. Depois da primeira aula, porém, o espaço ganhou outro significado. A enfermeira diz que continuaria frequentando as aulas mesmo que precisasse percorrer uma distância maior, principalmente pelo acolhimento e pela possibilidade de aprender algo novo em um ambiente no qual se sente respeitada e incentivada. Um espaço de convivência e cuidado Para Rogélia Pinheiro, gerente do Clube da Costura, a experiência mostra como uma atividade manual pode ocupar um lugar importante na rotina de quem busca novos interesses e momentos de convivência. Ela ressalta, porém, que a costura não deve ser confundida com tratamento, mas pode fazer parte das atividades que proporcionam satisfação e ajudam a pessoa a reservar um tempo para si. “Quando alguém chega ao Clube, normalmente vem para aprender uma habilidade nova, mas acaba encontrando também um espaço de convivência e de troca. Durante as aulas, a pessoa precisa estar presente, prestar atenção no que está fazendo, lidar com os desafios do aprendizado e, ao mesmo tempo, tem a oportunidade de conversar e conhecer outras histórias. A costura não substitui uma prescrição médica, mas acreditamos que ter uma atividade que traz satisfação e reservar um tempo para si podem fazer parte de uma rotina de cuidado”, conclui.
Por Larissa Ximenes

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