terça-feira, 25 de agosto de 2026
Estudo do Einstein mostra impacto positivo de mudança em política pública no tratamento da esclerose múltipla
Estudo do Einstein mostra impacto positivo de mudança em política pública no tratamento da esclerose múltipla
Pesquisa analisou mais de 1,7 milhão de registros do SUS e identificou ampliação do acesso a terapias de alta eficácia após atualização das diretrizes nacionais
Como medir se uma política pública realmente melhora o acesso da população aos tratamentos mais eficazes? Para responder a essa pergunta, pesquisadores do Einstein Hospital Israelita recorreram ao uso de big data e analisaram mais de 1,7 milhão de registros de dispensação de medicamentos do Sistema Único de Saúde (SUS) entre 2019 e 2023. Publicado na revista Multiple Sclerosis and Related Disorders, o estudo avaliou os impactos da atualização do Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas (PCDT) para esclerose múltipla, implementada em 2021, e identificou avanços importantes na incorporação de terapias de alta eficácia.
O estudo foi desenvolvido por pesquisadores do Centro de Estudos e Promoção de Políticas de Saúde do Einstein Hospital Israelita. Para realizá-lo, os cientistas utilizaram registros administrativos do DATASUS.
Os resultados mostraram que, após a revisão das diretrizes nacionais, a dispensação de natalizumabe, medicamento indicado para pacientes com formas mais agressivas da doença, aumentou 44,5% em todo o país. Também foi observado crescimento na utilização de outras terapias de alta eficácia e redução do uso de medicamentos injetáveis de menor eficácia. No mesmo período, o número de pacientes em tratamento pelo SUS aumentou 25,9%, indicando maior acesso ao cuidado especializado.
A esclerose múltipla é uma doença neurológica autoimune e crônica em que o sistema imunológico passa a atacar estruturas do sistema nervoso central, comprometendo a comunicação entre cérebro e corpo. Embora não tenha cura, o diagnóstico precoce e o tratamento adequado podem reduzir a frequência dos surtos, retardar a progressão da incapacidade e preservar a qualidade de vida dos pacientes.
"Os resultados mostram que políticas públicas construídas com base em evidências científicas têm potencial para transformar a prática clínica. Quando as diretrizes passam a incorporar terapias mais eficazes, aumentam as oportunidades de os pacientes receberem tratamentos capazes de controlar melhor a atividade da doença e reduzir o risco de incapacidade ao longo do tempo”, afirma a Dra. Lívia Almeida Dutra, neurologista, coordenadora do Instituto do Cérebro do Einstein e uma das autoras do estudo.
E prossegue: “Esse tipo de evidência também permite identificar experiências bem-sucedidas e adaptá-las a diferentes realidades. Fortalecer a rede de atendimento especializado é um caminho para ampliar o acesso às melhores opções terapêuticas em todas as regiões do país", pontua a Dra. Lívia.
Outro achado relevante foi a mudança no padrão terapêutico após a atualização do protocolo nacional. A migração de pacientes para terapias de alta eficácia aumentou 82%, enquanto as trocas entre medicamentos de eficácia semelhante diminuíram 54%, indicando maior adoção de estratégias terapêuticas alinhadas às evidências científicas mais recentes. A análise também observou diferentes ritmos de incorporação das terapias de alta eficácia entre os estados brasileiros. A adoção foi mais elevada em locais com maior concentração de neurologistas e centros especializados no atendimento à esclerose múltipla, apontando oportunidades para ampliar esse acesso em outras regiões do país.
"O acompanhamento de grandes bases de dados é fundamental para verificar se uma política pública está produzindo os resultados esperados, além de orientar investimentos em infraestrutura, serviços especializados e capacitação profissional. Evidências do mundo real ajudam a qualificar a tomada de decisão e a construir um sistema de saúde mais eficiente e centrado nas necessidades dos pacientes", conclui Lucas Hernandes Correa, um dos autores do estudo e gerente do Centro de Estudos e Promoção de Políticas de Saúde do Einstein Hospital Israelita.
O estudo contou com a participação da Faculdade de Medicina de Botucatu da Universidade Estadual Paulista (Unesp) e do Registro de Doenças Neurológicas (REDONE).
A atualização do Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas (PCDT), publicada pelo Ministério da Saúde, incorporou novas evidências científicas ao tratamento da esclerose múltipla no SUS. Entre as principais mudanças, passou a recomendar o uso do natalizumabe como primeira opção de tratamento para pacientes com esclerose múltipla remitente-recorrente de alta atividade, inclusive sem necessidade de falha prévia a outras terapias.
FatoMais Comunicação
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