quinta-feira, 16 de julho de 2026

O boom da proteína: quando mais nem sempre significa mais saúde ou desempenho

O boom da proteína: quando mais nem sempre significa mais saúde ou desempenho A proteína nunca esteve tão em evidência. Iogurtes, barras de cereal, sorvetes, bebidas, pães, biscoitos e até sobremesas passaram a destacar no rótulo o alto teor do nutriente como um diferencial competitivo. Nas redes sociais, vídeos ensinando como "bater a meta diária de proteína" acumulam milhões de visualizações, enquanto o mercado responde com uma oferta crescente de produtos destinados a um público muito além dos atletas. Esse movimento reflete uma mudança no comportamento do consumidor, cada vez mais interessado em alimentação saudável e desempenho físico. No entanto, especialistas alertam que o marketing dos alimentos "proteinados" pode levar muitas pessoas a acreditar que consumir mais proteína significa, automaticamente, mais saúde, mais músculos ou melhor rendimento, o que nem sempre corresponde à realidade. Para a nutricionista clínica e esportiva Ana Camila Mininel Liberador, o interesse crescente pela proteína é positivo, desde que venha acompanhado de informação de qualidade. "A proteína é um nutriente essencial para o funcionamento do organismo, mas isso não significa que quanto mais proteína uma pessoa consumir, melhores serão os resultados. A necessidade varia conforme idade, composição corporal, nível de atividade física, objetivos e condições de saúde", explica. Responsável pela formação e recuperação dos tecidos, manutenção da massa muscular, produção de enzimas, hormônios e diversas funções metabólicas, a proteína realmente exerce papel fundamental na alimentação. Entretanto, a especialista explica que as recomendações nutricionais diferem bastante entre os perfis de consumidores. Enquanto adultos sedentários necessitam, em média, de cerca de 0,8 grama de proteína por quilo de peso corporal ao dia, pessoas fisicamente ativas ou que buscam hipertrofia muscular podem precisar de 1,4 a 2,0 g/kg/dia, conforme recomendações da Sociedade Internacional de Nutrição Esportiva (ISSN). Ou seja, consumir grandes quantidades sem necessidade dificilmente trará benefícios adicionais. Outro ponto que merece atenção é que muitos produtos comercializados como ricos em proteína continuam sendo classificados como ultraprocessados. Embora ofereçam mais quantidade do nutriente, eles também podem apresentar níveis elevados de sódio, açúcares adicionados, gorduras e aditivos utilizados para melhorar sabor, textura e conservação. Nesse aspecto, Ana Camila ressalta que o consumidor precisa aprender a analisar o alimento como um todo, e não apenas o destaque da embalagem. "O fato de um produto ser rico em proteína não faz dele automaticamente uma escolha saudável. É importante observar a lista de ingredientes, a quantidade de sódio, açúcares adicionados e o perfil nutricional completo. A proteína é apenas uma parte da qualidade do alimento", diz. Para facilitar essa avaliação, a nutricionista recomenda atenção especial a três pontos do rótulo: a lista de ingredientes, priorizando produtos com composição mais simples e reconhecível; a presença de açúcares e adoçantes entre os primeiros ingredientes; a quantidade de sódio, que costuma ser elevada em diversos alimentos ultraprocessados. Ela destaca ainda que, para a maioria das pessoas, as melhores fontes proteicas continuam sendo os alimentos naturalmente ricos nesse nutriente. "Ovos, carnes magras, peixes, leite, iogurte natural, queijos, feijões, lentilhas e grão-de-bico oferecem proteínas de excelente qualidade, além de vitaminas, minerais, fibras e outros nutrientes importantes para a saúde. Muitas vezes, eles apresentam melhor custo-benefício e maior qualidade nutricional do que diversos produtos industrializados enriquecidos com proteína", afirma Ana Camila. Segundo a especialista, o fenômeno observado atualmente lembra outras tendências alimentares que ganharam força nas últimas décadas. "Durante muito tempo, os alimentos eram vendidos destacando que eram 'light', 'zero gordura' ou 'sem açúcar'. Hoje, a proteína ocupa esse espaço como principal argumento de marketing. Isso mostra que o consumidor está mais atento à alimentação, o que é positivo, mas também reforça a importância da educação nutricional para que as escolhas sejam feitas com base na composição do alimento, e não apenas na mensagem da embalagem", ressalta. Na avaliação da nutricionista, a proteína está longe de ser uma vilã. Pelo contrário, trata-se de um nutriente indispensável para a saúde. O problema surge quando ela passa a ser vista como solução única para emagrecimento, ganho de massa muscular ou melhora do desempenho físico. "Nenhum alimento isolado faz milagres. Os melhores resultados continuam dependendo de uma alimentação equilibrada, adequada às necessidades individuais, associada à prática regular de atividade física e a hábitos de vida saudáveis. A proteína é importante, mas ela faz parte de um conjunto muito maior", finaliza. Ou seja, antes de incluir indiscriminadamente produtos enriquecidos na rotina, o ideal é compreender se realmente existe necessidade desse aumento de consumo, consultando um especialista. Mais do que atingir uma meta de proteína, a recomendação é investir em um padrão alimentar variado, equilibrado e orientado por evidências científicas. Mariana Seman Rua Bela Cintra, 1618 - 2ª andar São Paulo - SP - CEP: 01415-001 mariana@dampresscomunicacao.com

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