quarta-feira, 10 de junho de 2026
Livro inspirado em histórias reais do SUS revela o que os hospitais mostram para além dos diagnósticos
Livro inspirado em histórias reais do SUS revela o que os hospitais mostram para além dos diagnósticos
Nos corredores dos hospitais, a rotina não é feita apenas de exames, prescrições e procedimentos. Por trás de cada leito, há histórias de abandono, reencontros, conflitos familiares e tentativas de reconstrução de vínculos em meio à doença. Esse universo, geralmente invisível ao público, é o ponto de partida do livro Eu te vejo – Fragmentos de histórias vividas na atenção hospitalar, da assistente social e doutora em Educação Ondina Canuto.
O livro reúne 50 crônicas inspiradas em situações reais acompanhadas pela autora ao longo de anos de atuação no Sistema Único de Saúde (SUS). Sem se limitar à dimensão clínica, as narrativas mostram como questões sociais, emocionais e familiares influenciam diretamente o cuidado e a recuperação dos pacientes.
A obra lança luz sobre um aspecto pouco conhecido do funcionamento da rede hospitalar: o trabalho de profissionais que atuam para garantir direitos, mediar conflitos e acolher pessoas em situações de extrema fragilidade.
“O hospital é um lugar onde a dor física convive com histórias profundamente humanas. Muitas vezes, o que está em jogo não é apenas a doença, mas a ausência de vínculos, de apoio e de condições mínimas para seguir em frente”, afirma Ondina Canuto.
Organizado em cinco pilares: Acolher, Vincular, Mediar, Transcender e SUStentar, o livro propõe uma reflexão sobre o cuidado como um processo que ultrapassa os limites do atendimento médico e envolve escuta, empatia e responsabilidade coletiva.
O próprio título da obra expressa essa compreensão ampliada do cuidado. Mais do que um gesto de observação, Eu te vejo remete à ideia de reconhecer o outro em sua humanidade plena, em sua história, seus afetos, suas fragilidades e sua dignidade. Inspirada em uma filosofia ancestral segundo a qual ver alguém é também validá-lo em sua existência, a expressão sintetiza uma das mensagens centrais do livro: nenhuma pessoa deve ser reduzida a um diagnóstico, a um prontuário ou a uma condição clínica. Antes de ser paciente, cada indivíduo é uma vida marcada por relações, memórias, perdas, esperanças e direitos que também precisam ser acolhidos no processo de cuidado.
Embora tenha sido concebida a partir da experiência da autora no Serviço Social, a obra dialoga com um debate cada vez mais presente no país sobre a necessidade de humanizar a assistência em saúde. Em um contexto marcado pelo envelhecimento da população, pelo aumento das doenças crônicas e pela sobrecarga dos serviços, cresce a percepção de que o cuidado não pode ser reduzido a protocolos e condutas técnicas. Ele depende também da capacidade de compreender as circunstâncias sociais, afetivas e econômicas que acompanham cada paciente.
Ao transformar essas vivências em literatura, Eu te vejo aproxima o leitor de situações que revelam os bastidores de um trabalho frequentemente silencioso, mas essencial para o funcionamento do SUS. O livro oferece uma perspectiva sensível sobre o cotidiano hospitalar e amplia a compreensão pública sobre o papel de profissionais que atuam na mediação entre a doença e a vida concreta de quem enfrenta o adoecimento.
A obra propõe uma reflexão sobre dignidade, direitos e responsabilidade coletiva. Ao evidenciar experiências que costumam permanecer à margem, Ondina Canuto convida o leitor a perceber que, em muitos casos, o cuidado começa quando alguém é reconhecido em sua história, em sua vulnerabilidade e em sua condição humana.
CAMILA PONTES DE ALBUQUERQUE
camilajornalist@gmail.com
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