quinta-feira, 21 de maio de 2026

Série audiovisual inédita vai contar a história de Lia de Itamaracá, a maior cirandeira do Brasil

Série audiovisual inédita vai contar a história de Lia de Itamaracá, a maior cirandeira do Brasil Produção dirigida pela cineasta Lia Letícia e pelo produtor Beto Hees tem seis episódios e mistura documentário e ficção para revisitar a vida de Maria Madalena, desde a infância na Ilha de Itamaracá até o reconhecimento nacional e internacional. Artista busca patrocínio para gravar material
A voz de Lia de Itamaracá atravessa décadas como quem carrega o mar dentro do peito. Figura central da cultura popular pernambucana, a artista prepara agora um novo mergulho em sua própria trajetória com a série Maria Madalena – Lia de Itamaracá, produção audiovisual em seis episódios de 23 minutos que pretende revisitar não apenas a artista conhecida pelo Brasil, mas sobretudo a mulher por trás do mito. O piloto da produção, incentivado com recursos do Funcultura Audiovisual, começou a ser gravado essa semana na praia de Jaguaribe, em Itamaracá. O episódio servirá para a equipe da Ciranda Produções buscar patrocínio para a gravação da obra. Entre documentário e ficção, a série vai reconstruir caminhos, dores, afetos e conquistas de Maria Madalena Correia do Nascimento, que transformou a ciranda em símbolo de identidade cultural brasileira. A produção acompanha desde a infância marcada pela pobreza e pela exclusão até o reconhecimento nacional e internacional. “Eu sempre soube que seria artista. O povo ria de mim quando eu dizia isso ainda menina, porque naquele tempo uma mulher preta, pobre e da Ilha sonhar isso tudo parecia impossível. Mas eu nunca deixei de acreditar na minha voz, na minha ciranda e na minha história”, relembra Lia.
A estrutura narrativa da série mistura relatos íntimos da artista, encenações ficcionais com atores e atrizes, imagens de arquivo e performances musicais conduzidas pela própria Lia. Cada episódio será guiado por uma música, uma lembrança e um espaço simbólico da Ilha de Itamaracá. Com essa intimidade que a série conduz, a sobrinha Maria Salete, que carrega o apelido de “Preta”, e sua filha, Pietra Victória, 3 anos, sobrinha-neta de Lia, farão os papeis da artista na infância e no começo da vida adulta e artística. As duas atrizes foram escolhidas pela cirandeira para interpretá-la. “Preta” também já esteve no papel da sua avó e mãe de Lia, Dona Matilde, no curta Dorme Pretinho (2024), baseado na música da cirandeira. O filme foi exibido em mais de 30 festivais de cinema e conquistou prekär miações, como o de melhor trilha no 15º Festival de Triunfo (Pernambuco) e melhor filme no 5º Festival de Cinema Negro em Ação (Rio Grande do Sul). A proposta da série nasce do desejo da própria artista de registrar aquilo que ela chama de “a Lia antes da Lia”. Ou seja: a trajetória de Maria Madalena antes da consagração nos palcos e da fama. Uma história atravessada por questões raciais, sociais e territoriais, mas também pela força simbólica de uma mulher negra que transformou adversidade em permanência. Ao longo de mais de seis décadas de carreira, Lia lançou quatro álbuns, tornou-se Patrimônio Vivo da Cultura Pernambucana, recebeu o título de Doutora Honoris Causa pela Universidade Federal de Pernambuco e foi homenageada por instituições no Brasil e no exterior. Sua trajetória também dialoga com o cinema, tendo participado de produções de nomes como Tizuka Yamasaki, Lírio Ferreira e Kleber Mendonça Filho, em Bacurau e Recife Frio. Ao longo de 10 anos, uma equipe liderada pela cineasta Lia Letícia e pelo produtor Beto Hees já produziu mais de 10 mini-docs sobre Lia de Itamaracá, além de videoclipes e curta-metragens, como Encantada (2012).
“Essa série tem um diferencial, ela não pretende apenas reverenciar uma trajetória individual. A Ilha de Itamaracá surge como ambiente central da narrativa. O território, marcado pela força da pesca artesanal, pelas tradições populares e também pelo abandono histórico, aparece como extensão da própria artista. A produção constrói um mapa afetivo da vida de Lia, conectando lembranças, paisagens e sons da ilha às memórias narradas pela cantora”, explica Beto Hees, produtor e empresário da cantora há 30 anos. “Contar a história de Lia é também contar a história de um Brasil profundo, popular e muitas vezes invisibilizado. Quando falamos de Lia, não estamos falando apenas de uma artista consagrada, mas de uma mulher negra, nordestina e periférica que atravessou décadas resistindo através da cultura. A trajetória dela reúne questões de território, ancestralidade, memória, racismo, pertencimento e sobrevivência”, afirma a diretora Lia Letícia. Aos 82 anos, Lia segue em movimento. Recentemente, a cirandeira lançou o quinto disco de sua carreira em parceria com a cantora baiana Daúde. Intitulado Pelos Olhos do Mar, o trabalho chegou às plataformas de streaming pelo SeloSesc e reúne um repertório que atravessa diferentes sonoridades, aproximando a cultura popular pernambucana de elementos do bolero, dub e linguagens urbanas contemporâneas. Entre faixas inéditas e releituras, o álbum dialoga com composições de nomes como Emicida, Russo Passapusso, Céu, Otto e Chico César. Nos últimos anos, Lia participou da feira internacional de música Womex, em Lisboa, foi tema de ocupações culturais em São Paulo e no Recife e inspirou enredos de escolas de samba como a Império da Tijuca e a Nenê de Vila Matilde. Agora, transforma a própria vida em narrativa audiovisual. Uma história onde memória, território, música e resistência caminham de mãos dadas, como numa grande roda de ciranda à beira-mar. PEDRO CUNHA pedrocunha.media@gmail.com

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