sexta-feira, 5 de junho de 2026
"Morrer de tristeza" existe? Especialista explica a Síndrome do Coração Partido
"Morrer de tristeza" existe? Especialista explica a Síndrome do Coração Partido após repercussão da morte de Marjane Satrapi
Dra. Fernanda Weiler, cardiologista do Hospital Sírio-Libanês de Brasília e diretora do Colégio Brasileiro de Medicina do Estilo de Vida, esclarece como emoções intensas podem afetar o coração e alerta para sintomas que exigem atenção médica
A morte da escritora, cineasta e ilustradora franco-iraniana Marjane Satrapi, autora do premiado "Persépolis", aos 56 anos, repercutiu mundialmente após familiares afirmarem que ela teria morrido de "tristeza", pouco mais de um ano após a perda do marido. Embora não exista confirmação médica sobre a causa do óbito, a declaração reacendeu uma discussão importante: afinal, é possível que um sofrimento emocional intenso afete o coração de forma real e mensurável?
Segundo a cardiologista Dra. Fernanda Weiler, do Hospital Sírio-Libanês de Brasília e diretora do Colégio Brasileiro de Medicina do Estilo de Vida, existe uma condição reconhecida pela medicina chamada cardiomiopatia de Takotsubo, popularmente conhecida como Síndrome do Coração Partido. "Trata-se de uma disfunção temporária do músculo cardíaco desencadeada por situações de forte estresse emocional ou físico. A pessoa pode apresentar sintomas muito semelhantes aos de um infarto, como dor no peito, falta de ar e palpitações, mas a causa é diferente", explica a especialista.
Descrita pela primeira vez no Japão na década de 1990, a síndrome recebe esse nome porque o formato assumido pelo coração durante a crise se assemelha a uma armadilha utilizada para capturar polvos, chamada takotsubo.
De acordo com estudos publicados pela American Heart Association e pela European Society of Cardiology, a condição representa entre 1% e 3% dos casos inicialmente diagnosticados como síndrome coronariana aguda. Embora seja mais comum em mulheres após a menopausa, pode atingir pessoas de diferentes idades e perfis.
"Eventos como a perda de um ente querido, um divórcio, um diagnóstico grave, acidentes ou até situações positivas muito intensas podem desencadear uma descarga elevada de hormônios do estresse, especialmente adrenalina e noradrenalina, levando a alterações temporárias na função cardíaca", afirma Fernanda.
Apesar de geralmente ser reversível, a Síndrome do Coração Partido não deve ser encarada como algo inofensivo. Estudos internacionais mostram que complicações podem ocorrer, incluindo insuficiência cardíaca, arritmias e, em casos mais raros, choque cardiogênico.
Dra Fernanda ressalta que o episódio também reforça a necessidade de olhar para a saúde de forma integrada. "Durante muito tempo corpo e mente foram tratados separadamente. Hoje sabemos que saúde emocional, qualidade do sono, alimentação, atividade física e manejo do estresse exercem influência direta sobre a saúde cardiovascular. O coração não está desconectado das nossas emoções", destaca.
A diretora do Colégio Brasileiro de Medicina do Estilo de Vida lembra ainda que o luto é uma experiência humana natural, mas que merece acolhimento e atenção quando provoca sofrimento intenso ou persistente. "Buscar apoio psicológico, manter vínculos sociais e cuidar dos hábitos de vida são atitudes que ajudam não apenas a saúde mental, mas também a saúde cardiovascular. O cuidado precisa ser integral", conclui Dra Fernanda.
Sugestão de box:
MITOS E VERDADES SOBRE A SÍNDROME DO CORAÇÃO PARTIDO
Apenas pessoas emocionalmente frágeis desenvolvem a síndrome.
MITO
“A condição pode afetar qualquer pessoa submetida a um estresse emocional ou físico intenso”, diz Fernanda.
Os sintomas podem ser confundidos com um infarto.
VERDADE
“Dor no peito, falta de ar e sudorese são manifestações comuns em ambas as situações”, explica a médica.
A síndrome acontece apenas após a morte de alguém próximo.
MITO
“Ela pode ser desencadeada por diferentes eventos, como separações, acidentes, diagnósticos médicos graves, cirurgias e até acontecimentos positivos muito impactantes”
É uma doença psicológica.
MITO
“Embora tenha relação com emoções intensas, trata-se de uma alteração física e real no funcionamento do coração”, diz Fernanda.
A maioria dos pacientes se recupera.
VERDADE
“Com acompanhamento médico adequado, a função cardíaca costuma retornar ao normal em dias ou semanas”
Sobre a Dra Fernanda Weiler:
Dra Fernanda Weiler é formada em medicina pela Universidade de Brasília (UNB) com residência em cardiologia pela mesma Universidade. É membro da Sociedade Brasileira de Cardiologia e certificada internacionalmente em Medicina do Estilo de Vida. Entre 2014 e 2015 foi professora da UNB, mesma Universidade em que se formou.
Sua extensão em Medicina do Estilo de Vida, feita na Harvard Medical School (EUA) fez com que Dra Fernanda passasse a olhar a saúde cardíaca como resultado também (e principalmente) das escolhas de vida de cada pessoa. Defensora da atividade física e da promoção dos bons hábitos, dedica parte de sua carreira a incentivar seus pacientes e seguidores das redes sociais a adotarem melhores hábitos no que tange aos seis pilares da Medicina do Estilo de Vida.
Dra Fernanda é também co-fundadora do grupo “Mais uma D.O.S.E (dopamina, ocitocina, serotonina, endorfina)”, que visa a melhora na qualidade de vida através da Medicina do Estilo de Vida.
Prima Donna Comunicação
Tatiana Fanti
tatiana@primadonna.etc.br
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